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May 6, 2026
Stablecoins
Pagamentos

O sistema financeiro já escolheu o mundo onchain

Durante anos, a conversa pública sobre o ecossistema cripto foi dominada por volatilidade e escândalos. Enquanto isso, algo muito mais estrutural avançava em paralelo: a migração da infraestrutura financeira global para modelos baseados em blockchain. Este artigo analisa os movimentos recentes de ICE, Nasdaq, Mastercard e da SEC americana, e o que essa convergência significa para a América Latina e, em particular, para a Argentina.

Rafael De Ambrosi

Durante anos, grande parte da conversa pública sobre o ecossistema cripto foi dominada por volatilidade de preços, fraudes e lavagem de dinheiro. No entanto, enquanto a atenção permanecia fixada nessa frente, que representa uma minoria das transações cripto, algo muito mais estrutural avançava em paralelo: a transformação da infraestrutura financeira global.

Hoje, isso não é mais uma hipótese ou uma promessa tecnológica. Os principais atores do sistema financeiro internacional estão migrando ativamente para modelos baseados em blockchain. Não estão "testando" o mundo onchain. Estão construindo-o.

Nas últimas semanas, essa tendência tornou-se impossível de ignorar. A Intercontinental Exchange (ICE), empresa que opera a Bolsa de Nova York, realizou um investimento estratégico na OKX e integrou o acesso a mercados tradicionais com ações tokenizadas. A Nasdaq anunciou uma parceria com a Kraken para conectar mercados de capitais regulamentados a redes blockchain e viabilizar ações tokenizadas com os mesmos direitos das ações tradicionais, mas com operação 24 horas por dia e liquidação instantânea. A Mastercard adquiriu a BVNK, uma empresa de infraestrutura de stablecoins com presença em mais de 130 países, confirmando que as redes de pagamento globais também estão incorporando essa tecnologia como parte de sua infraestrutura central. E, em paralelo, a SEC americana traçou uma linha regulatória importante ao estabelecer que certas stablecoins de pagamento não constituem valores mobiliários, enviando um sinal que provavelmente servirá de referência para reguladores em todo o mundo.

Tomados em conjunto, esses movimentos mostram que não se trata mais de experimentos isolados, mas de uma convergência concreta entre mercados de capitais, pagamentos globais e regulação em torno da infraestrutura financeira onchain.

Nada disso é independente ou coincidente. Responde a um conjunto compartilhado de evidências: a infraestrutura financeira onchain, programável, transparente e com liquidação quase instantânea, é objetivamente mais eficiente do que os sistemas legados do século XX.

Não estamos assistindo a uma substituição do sistema financeiro. Estamos assistindo à sua atualização.

E essa atualização já está em curso.

O que isso significa para a América Latina

Para a Argentina, esse processo carrega implicações especialmente relevantes. O país tem uma das maiores taxas de adoção digital do dólar do mundo. A demanda por stablecoins não vem da especulação, mas de uma necessidade concreta: acesso a reserva de valor, interoperabilidade e eficiência dentro de um contexto macroeconômico desafiador.

Nesse sentido, a infraestrutura onchain não é um fenômeno importado. É uma resposta que o próprio mercado local já começou a construir, muitas vezes fora de qualquer marco regulatório definido.

A questão real é se a Argentina participará ativamente na definição das regras que governarão essa nova infraestrutura, ou se as adotará posteriormente como ator passivo, incorporando padrões definidos em outros mercados.

Nesse mapa, o Brasil já optou por avançar com maior determinação e, em vários aspectos, uma abordagem mais agressiva e aberta do que a dos Estados Unidos. Os EUA continuam definindo o ritmo global, mas o fazem de forma gradual, alinhando incumbentes, novos entrantes e camadas de inovação dentro de sua própria arquitetura financeira. Na América Latina, em contrapartida, a maioria dos países ainda se posiciona como seguidor nessa conversa: a Argentina acompanha de perto o padrão americano, enquanto mercados como México e Colômbia observam essa evolução de uma distância maior.

Seguir de perto não é o mesmo que copiar

Os marcos regulatórios americanos foram desenvolvidos para resolver problemas americanos: um sistema financeiro profundo com amplo acesso bancário, uma moeda de reserva global e mercados de capitais líquidos. Nesse contexto, as stablecoins são uma melhoria de eficiência. Na América Latina, são algo completamente diferente: são infraestrutura de acesso.

Um trabalhador migrante enviando remessas para a família na Venezuela ou na Bolívia não precisa de um marco regulatório desenvolvido para custodiantes institucionais em Nova York. Uma empresa operando em três países da região que precisa liquidar pagamentos transfronteiriços em tempo real não enfrenta os mesmos problemas que um banco correspondente em Londres. E um regime tributário modelado a partir da abordagem americana e aplicado a ativos digitais pode se mostrar, em economias com alta informalidade e baixa penetração bancária, simplesmente inviável.

Não se trata de ignorar o que os mercados desenvolvidos estão fazendo. Trata-se de compreender que suas respostas foram construídas para suas perguntas. A América Latina tem suas próprias perguntas, e a região que começar a construir suas próprias respostas definirá o padrão para todos os demais. A Argentina, com a maior taxa de adoção digital do dólar da região e uma longa história de inovação financeira nascida da necessidade, tem tudo o que é preciso para liderar essa conversa. A questão é se ela vai escolher fazê-lo.

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